PELO SÉCULO INSEGURO E PERENE ADENTRO

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Leio, por vias travessas, esta frase de Primo Levi [que aparece num ensaio seu intitulado «Sobre a Escrita Obscura»]:


Não é verdade que para descrever desordem seja necessária desordem; não é verdade que o caos na página escrita seja o melhor símbolo do extremo caos a que estamos destinados: considero isso um erro característico do nosso século inseguro.

O que me prende de imediato é o adjectivo usado: inseguro. Primo Levi viveu o século XX quase na íntegra, e, claro, a sua insegurança, o seu ruído e caos, da forma mais extrema. O que me importa agora, porém, não é versar sobre a biografia de Primo Levi, sobre a experiência definitiva e dolorosa em Auschwitz, ou as suas qualidades enquanto escritor tardiamente reconhecido. 

Interessa-me o adjectivo porque acho um resumo ineficaz da alma humana, e da arte, moderna - uma sendo êmbolo da outra. A aparência da alma hodierna certamente é fragmentada, caótica, em desordem psíquica, porque é a mesma que vem do tenebroso século que Primo Levi testemunhou, e com quantas revoluções históricas na sua carga. A alma do artista moderno carrega o símbolo invertido da memória utópica divinizante, em que ser experimental, obscuro e sofisticado é condição sine qua non para a sua prática. O artista de hoje não faz relatórios, de resto, a grelha por onde Se Isto é um Homem se guiou. A arte moderna tem como prerrogativa essencial ser contra descritivismos; tem de relacionar a evidência existencial, imprevisível e fonte de dor (que vem dos séculos), com o composto desse mesmo desconforto físico. A arte moderna não é insegura. É necessária, brutal, teutónica, mas nunca um bibelô artificial expelido pela alma.