O CONHECIMENTO DOS PÁSSAROS
by Diogo Almeida
"Fizemos uma longa viagem para chegarmos a nós próprios" é a última fala do que parece ser um entreacto da peça de teatro sobre a qual gravita todo o filme, ou devemos dizer a estória, de Abdellatif Kechiche/Ghalya Lacroix em L'Esquive. O filme é toda a odisseia amorosa de Krimo, adolescente que se nos apresenta como um underdog que foge, e que antes do seu final trágico e feio, é usado para despertar reflexões metafísicas acerca da arte de representar, do teor dos sentimentos profundos e da força intratável e simples do amor. Pelo meio há um tratado sociológico, idealizado pela peça, que convém, a bem da luta de classes, mostrar, em que o cinema de origem francófona sempre se empenhou. Um filme sólido no seu labor estético, mas repleto de vasos que não se comunicam, abertos, expostos ao delírio hormonal do lado mais violento da vida adolescente. A viagem de Krimo passa, então, entre este mundo de subúrbio, na sua condição descendente, sem chama moral, e a teia do conto de fadas que a cultura, contra tudo e todos, tece ao redor do peso inconsumível da vida: onde Krimo dota de self-awareness o mundo tantas vezes preciso e, outras, encantado, do amor, é onde todos os outros giram sem se aperceberem da brutalidade fascinante desse Krimo, estrangeiro, absurdo, invisível e aos gritos. L'Esquive tem um fim, um Krimo também, que não merece.
