(SOBRE A INUTILIDADE)

Às vezes as fábricas ardem.
Dezenas de extintores explodem lá dentro.

E FAZER A COMPARAÇÃO COM O VELHO EU

Um destes dias volto ao desenho, volto a desenhar, para ver o que se passa dentro de mim depois de uns bons tempos afastado.

GRAVE NÃO É EXISTIR; É NÃO SER FELIZ

Deus existir é um absurdo. Não é o absurdo no sentido de irrealizável ou muito improvável. É absurdo no sentido de milagre. A existência de Deus tem o carácter de milagre, improbabilidade mágica. Mas, se não existisse, não estaríamos aqui a conjecturar o como da sua existência. É um absurdo ao quadrado. O real não engana; mas, se por detrás de cada evento que parece acontecer por acaso, existir uma causa e um plano genioso, será que podemos suspender o absurdo da existência de Deus? Deus criou o homem porque estava farto de rolar a pedra montanha acima? E se formos nós essa pedra? Estas perguntas são legítimas, mas só se legitimam caso o homem tenha uma finalidade que passe pela felicidade absoluta. Assim eu acredito. Acredito num Deus que ri, dança e é feliz. O absurdo da situação (a realidade não engana) passa ao esquecimento perante a potência dessa felicidade última que Deus é. Fora destes parâmetros, nada mais faz sentido. Nós viemos a existir para ser felizes. Mas Deus prova-nos, pedindo-nos a esperança nele, que tudo poderia ser, ao invés, absurdo. Desolado, sem fim, sentido ou gravidade.

PELO SÉCULO INSEGURO E PERENE ADENTRO

Leio, por vias travessas, esta frase de Primo Levi [que aparece num ensaio seu intitulado «Sobre a Escrita Obscura»]:


Não é verdade que para descrever desordem seja necessária desordem; não é verdade que o caos na página escrita seja o melhor símbolo do extremo caos a que estamos destinados: considero isso um erro característico do nosso século inseguro.

O que me prende de imediato é o adjectivo usado: inseguro. Primo Levi viveu o século XX quase na íntegra, e, claro, a sua insegurança, o seu ruído e caos, da forma mais extrema. O que me importa agora, porém, não é versar sobre a biografia de Primo Levi, sobre a experiência definitiva e dolorosa em Auschwitz, ou as suas qualidades enquanto escritor tardiamente reconhecido. 

Interessa-me o adjectivo porque acho um resumo ineficaz da alma humana, e da arte, moderna - uma sendo êmbolo da outra. A aparência da alma hodierna certamente é fragmentada, caótica, em desordem psíquica, porque é a mesma que vem do tenebroso século que Primo Levi testemunhou, e com quantas revoluções históricas na sua carga. A alma do artista moderno carrega o símbolo invertido da memória utópica divinizante, em que ser experimental, obscuro e sofisticado é condição sine qua non para a sua prática. O artista de hoje não faz relatórios, de resto, a grelha por onde Se Isto é um Homem se guiou. A arte moderna tem como prerrogativa essencial ser contra descritivismos; tem de relacionar a evidência existencial, imprevisível e fonte de dor (que vem dos séculos), com o composto desse mesmo desconforto físico. A arte moderna não é insegura. É necessária, brutal, teutónica, mas nunca um bibelô artificial expelido pela alma.

SER HUMANO E VER DEUS

Todas as explicações, tese, são paliativos no que toca à matéria Deus. À fé. A própria existência de Deus é um absurdo quando considerada holisticamente. Um absurdo, contemplado, que resulta mal, desde sempre, para o homem e para o divino enquanto relação fraterna de esperança. Se tivermos o mínimo, Deus é apelativo e, até, bonito. O grande problema é a injustiça. Dos que partem de uma posição que não é igual: aqui podem entrar mais paliativos, um tratamento forte para a nossa revolta de dor, podem dar-se cogitações que parecem aplacar a inquietação, pode entrar o próprio Deus feito carne para nos sossegar, enfim; nós, comuns mortais, não conseguimos compreender, aceitar, que haja um plano Perfeito. Acontece então o salto da fé: Confia - como se os sentidos não tivessem experienciado a realidade terrestre. É isso que uma fé esclarecida, observadora e inteligente pede. Como é difícil. Como é superior às nossas forças pedir isso. Como é tão absurdo pensar neste mundo como uma simulação, ou pior, como purga, expiação. O certo é que Ele existe. Quem O viu não pode dizer que não O viu: Ele deixa bem claro a sua posição, e qual a sua Vontade. A sua Vontade é esta: tu, tacteia no escuro, vem atrás de mim, Confia. É sempre uma conversa de luzes apagadas entre Deus e Isaac que se replica nas almas. Em luta, esperneando contra tudo o que não se coaduna à sua Vontade e a um espírito inferior, negro, de instinto animal, de crime, pecado, de pecado segundo uma encarnação. Aqui, a cáfila de padres, contar-nos-á a estória de como a desigualdade permaneceu no mundo. Que acham Deus ser um justiceiro do além-mundo: Aquele que corrige a injustiça original, Aquele que lava as lágrimas da incompreensão e desassossego enquanto nos tem no seu colo alvo e livre dos constrangimentos humanos. Como é doce e bonito este Deus de barriga aconchegada e corpo são. Não admira que os filósofos, e o Diabo, queiram ser como Deus.

ULTRAPASSAR O DAVID FOSTER WALLACE METE-ME MEDO

Nunca soube bem o que é a ficção; sobretudo, escrevê-la. Para mim, não existe ficção enquanto método de «imaginar, fantasiar». Escreve-se com a vida. Podemos ser mais teoréticos na aproximação à escrita, formais e até distar em muito a nossa experiência vital da experiência dos personagens; mas é a vida vivida que determina tudo o que fica escrito. Eu posso inventar uma língua nova [o que não é novo na arte]; posso caotizar o que quiser na anatomia do texto, ainda é a vida. A dado momento, até acho que se dá um processo de infiltração-inversão curioso: é a arte que começa a comandar a vida, o artista começa a ser um ismo qualquer, coisa que o define no transcurso entre o que é o artista-homem e a imagem que o espectador faz dele. Às tantas, fica encarcerado na beleza mesmo.

ESTOU AQUI, NO DESEJO

ESCREVER À MÃO E VER DEUS

Ter visto o rosto de Deus só tem correspondência, neste mundo, com a poesia escrita à mão. A poesia circula, pelas benesses e circunstâncias técnicas, impressa, procurando desde aí a alma original do poema sob a potência e virtualidade da imaginação do poeta, descaracterizado e impresso, mas é o registo à mão, quando o há, que possui o valor real dessa virtualidade. O livro industrial é um objecto morto, sucedâneo do sonho, epígono falhado em trânsito, à procura de um destino já conhecido e calcado. O escrever à mão, na sua qualidade de pintura, gesto pictórico, é único e irreproduzível ao passo que é interminável o seu ensaio honestíssimo, louco e solitário pela alma do poeta, desenha todo o seu ser, como se o princípio das mãos fosse um lugar encantado, sabendo do mar tenso e as sabedorias do homem e, também, é algo que se perde na esquina memorável da existência sob influência do tempo. Ter visto o rosto de Deus pode muito bem ser o momento abrolhado em que tudo balança para um lado, como predefinição ou prognóstico futuro, mas o momento que se irá reproduzir eternidade fora é um equívoco em série, um poema industrial da danação.

HEAVEN ON THE GROUND

It isn't fair
The way you smile.
It isn't right
Each time you pass me by.

I think I have found
Heaven on the ground
But I can't get close to you
Even when you're around me.
I will stay down
To be with you now,
Heaven on the ground.

Imagino uma noite de Verão amena. Os pássaros ainda gorjeiam sob os dólmen violeta, Um rio que desagua na lua, imaginação minha: faz música quando passo a mão pelo teu cabelo e paz. Embalo o meu sentir no jarro que pousaste na porta antes de a fecharmos... A tua pele que me diz parvoíces, que quer os mitos, que está perto, sempre perto, como um semáforo hesitante em que cor mostrar além do amarelo na chuva. Encosto-me nos arrabaldes das tuas curvas para as ouvir melhor, é a queda da folha de um plátano - o seu eco é astro-rei que fende o súbito, chão que já suporta a tua presença inteira. Deito-me em sonhos ao absurdo-longe, juro que me esqueço destes quando mais surgir no som de portões em ferrugem a arrastar vislumbres de campos plantados de sede, de nús, e desperto contigo cantando os heróis do passado, em como lhes achas graça, como se a montanha cobrisse a foz de ovo-elipse e sussurros esparsos, e Seremos um...

NA SOPA DAS VISÕES, DESATENTAS

É de notar que para José Gil, segundo o livro Ritmos e Visões, existem dois regimes de intensificação no “estado de criação”: o baixo, que permite ao artista permanecer indivíduo coerente e realista, em conformidade funcional, e o regime de alta intensificação, que traz o caos agarrado, desenraízando a estrutura psíquica do indivíduo na realidade objectiva. Esta nota, porém e nos dias de hoje, faz pouco sentido. É preciso ser muito desatento. O génio de hoje não é um gigante enjaulado na sua liberdade extrema, um aranhiço de solidão profunda, tecendo e conjugando a sua personalidade paradoxal, extravagante, porque não precisa ser. Ao viver, todo o indivíduo, rodeado por níveis de informação cada vez maiores e cientificamente precisos, pergunto-me até que ponto um “estado de criação” consegue extrair a originalidade necessária para ser válida. E, portanto, nessa deriva, algo tem de ser escolhido, já que ninguém pode antever o destino da arte. A validação da obra é outro assunto, bem mais romântico, abstracto, que lida com conceitos de utilidade. Ainda assim, a intensificação, no acto criativo, não foi abolida. É uma condição de todos os tempos, o mais preponderante amor fati do artista. O suporte é que difere drasticamente. E disto, José Gil, não viu.