ESTOU AQUI, NO DESEJO

ESCREVER À MÃO E VER DEUS

Ter visto o rosto de Deus só tem correspondência, neste mundo, com a poesia escrita à mão. A poesia circula, pelas benesses e circunstâncias técnicas, impressa, procurando desde aí a alma original do poema sob a potência e virtualidade da imaginação do poeta, descaracterizado e impresso, mas é o registo à mão, quando o há, que possui o valor real dessa virtualidade. O livro industrial é um objecto morto, sucedâneo do sonho, epígono falhado em trânsito, à procura de um destino já conhecido e calcado. O escrever à mão, na sua qualidade de pintura, gesto pictórico, é único e irreproduzível ao passo que é interminável o seu ensaio honestíssimo, louco e solitário pela alma do poeta, desenha todo o seu ser, como se o princípio das mãos fosse um lugar encantado, sabendo do mar tenso e as sabedorias do homem e, também, é algo que se perde na esquina memorável da existência sob influência do tempo. Ter visto o rosto de Deus pode muito bem ser o momento abrolhado em que tudo balança para um lado, como predefinição ou prognóstico futuro, mas o momento que se irá reproduzir eternidade fora é um equívoco em série, um poema industrial da danação.

HEAVEN ON THE GROUND

It isn't fair
The way you smile.
It isn't right
Each time you pass me by.

I think I have found
Heaven on the ground
But I can't get close to you
Even when you're around me.
I will stay down
To be with you now,
Heaven on the ground.

Imagino uma noite de Verão amena. Os pássaros ainda gorjeiam sob os dólmen violeta, Um rio que desagua na lua, imaginação minha: faz música quando passo a mão pelo teu cabelo e paz. Embalo o meu sentir no jarro que pousaste na porta antes de a fecharmos... A tua pele que me diz parvoíces, que quer os mitos, que está perto, sempre perto, como um semáforo hesitante em que cor mostrar além do amarelo na chuva. Encosto-me nos arrabaldes das tuas curvas para as ouvir melhor, é a queda da folha de um plátano - o seu eco é astro-rei que fende o súbito, chão que já suporta a tua presença inteira. Deito-me em sonhos ao absurdo-longe, juro que me esqueço destes quando mais surgir no som de portões em ferrugem a arrastar vislumbres de campos plantados de sede, de nús, e desperto contigo cantando os heróis do passado, em como lhes achas graça, como se a montanha cobrisse a foz de ovo-elipse e sussurros esparsos, e Seremos um...

NA SOPA DAS VISÕES, DESATENTAS

É de notar que para José Gil, segundo o livro Ritmos e Visões, existem dois regimes de intensificação no “estado de criação”: o baixo, que permite ao artista permanecer indivíduo coerente e realista, em conformidade funcional, e o regime de alta intensificação, que traz o caos agarrado, desenraízando a estrutura psíquica do indivíduo na realidade objectiva. Esta nota, porém e nos dias de hoje, faz pouco sentido. É preciso ser muito desatento. O génio de hoje não é um gigante enjaulado na sua liberdade extrema, um aranhiço de solidão profunda, tecendo e conjugando a sua personalidade paradoxal, extravagante, porque não precisa ser. Ao viver, todo o indivíduo, rodeado por níveis de informação cada vez maiores e cientificamente precisos, pergunto-me até que ponto um “estado de criação” consegue extrair a originalidade necessária para ser válida. E, portanto, nessa deriva, algo tem de ser escolhido, já que ninguém pode antever o destino da arte. A validação da obra é outro assunto, bem mais romântico, abstracto, que lida com conceitos de utilidade. Ainda assim, a intensificação, no acto criativo, não foi abolida. É uma condição de todos os tempos, o mais preponderante amor fati do artista. O suporte é que difere drasticamente. E disto, José Gil, não viu.

"TUDO É BIOGRAFIA"

Se eu filosofasse, começaria por procurar a verdade na intrínseca falta de verdade; o que quer dizer que tudo é uma experiência pessoalíssima, única e irrepetível. 

UM EQUILÍBRIO ANTIGO


 

A MINHA BOCA CONTRA O TEU OUVIDO

A Wikipédia nunca é de se fiar. Tem umas curiosidades do saber, uma aproximação concreta e específica ao objecto, mas sem verdade. Por exemplo, quem aluna na página dedicada a Eugénio de Andrade, vai em erro se for ler a poesia do homem fiando-se no separador «Principais trabalhos». Esses Magnum Opus para que a página aponta são nada mais nada menos que os piores livros de toda a poesia de Eugénio. Coincidem com os primeiros livros, livros de adolescente, renegados alguns pelo próprio Eugénio, mas não, tem de haver sempre um Wiki-génio em cada esquina para nos apontar o caminho certo. Um grande riso. Além de tudo isto, a página dedicada a Eugénio está reduzida ao nem-essencial biográfico, o que é uma tristeza - caramba, o homem era esquivo, mas podem falar sobre a grande poesia de Eugénio à vontade; que começa, como toda a gente com miolos sabe, lá para o fim dos anos 70, 80's, em diante. Um dos meus mais-que-favoritos é o Branco no Branco (1984). Fiem-se em mim.

A MATEMÁTICA DA GRAÇA

Será que Deus nos ama ao quadrado, ou em potência? Quem somos quando Deus nos visita? O que fazemos quando nos deixa resvalar no deserto?

MELODIAS GRÁTIS

Poemas de dois versos e título podem conter mais do que aqueles monstros surrealistas devoradores de páginas que o Herberto Helder criou. Mas como pode ser o que não se mostra ser o que se mostra? Entre algumas das questões metafísicas da arte, para a sua realização plena, essa deve ser a primeira e mais importante das respostas; porque a arte é o resíduo que fica de uma depuração sublime ou o caminho desse acrisolar inútil e abstracto, gestualidade. Eu, sinceramente, prefiro deixar os vestígios, para que o meu interlocutor tenha sempre a visão errada de mim.