ESCREVER À MÃO E VER DEUS
by Diogo Almeida
Ter visto o rosto de Deus só tem correspondência, neste mundo, com a poesia escrita à mão. A poesia circula, pelas benesses e circunstâncias técnicas, impressa, procurando desde aí a alma original do poema sob a potência e virtualidade da imaginação do poeta, descaracterizado e impresso, mas é o registo à mão, quando o há, que possui o valor real dessa virtualidade. O livro industrial é um objecto morto, sucedâneo do sonho, epígono falhado em trânsito, à procura de um destino já conhecido e calcado. O escrever à mão, na sua qualidade de pintura, gesto pictórico, é único e irreproduzível ao passo que é interminável o seu ensaio honestíssimo, louco e solitário pela alma do poeta, desenha todo o seu ser, como se o princípio das mãos fosse um lugar encantado, sabendo do mar tenso e as sabedorias do homem e, também, é algo que se perde na esquina memorável da existência sob influência do tempo. Ter visto o rosto de Deus pode muito bem ser o momento abrolhado em que tudo balança para um lado, como predefinição ou prognóstico futuro, mas o momento que se irá reproduzir eternidade fora é um equívoco em série, um poema industrial da danação.
