NA SOPA DAS VISÕES, DESATENTAS
by Diogo Almeida
É de notar que para José Gil, segundo o livro Ritmos e Visões, existem dois regimes de intensificação no “estado de criação”: o baixo, que permite ao artista permanecer indivíduo coerente e realista, em conformidade funcional, e o regime de alta intensificação, que traz o caos agarrado, desenraízando a estrutura psíquica do indivíduo na realidade objectiva. Esta nota, porém e nos dias de hoje, faz pouco sentido. É preciso ser muito desatento. O génio de hoje não é um gigante enjaulado na sua liberdade extrema, um aranhiço de solidão profunda, tecendo e conjugando a sua personalidade paradoxal, extravagante, porque não precisa ser. Ao viver, todo o indivíduo, rodeado por níveis de informação cada vez maiores e cientificamente precisos, pergunto-me até que ponto um “estado de criação” consegue extrair a originalidade necessária para ser válida. E, portanto, nessa deriva, algo tem de ser escolhido, já que ninguém pode antever o destino da arte. A validação da obra é outro assunto, bem mais romântico, abstracto, que lida com conceitos de utilidade. Ainda assim, a intensificação, no acto criativo, não foi abolida. É uma condição de todos os tempos, o mais preponderante amor fati do artista. O suporte é que difere drasticamente. E disto, José Gil, não viu.
