À ATENÇÃO DE ALGUÉM QUE HABITE O COSMOS
by Diogo Almeida
Não sei se acontece em Diccionario da Linguagem das Flores [2020], mas Lobo Antunes costuma meter Testemunhas de Jeová nos seus romances. Tal como a piscina vazia, as acácias, o velhinho senil que bebe tisanas (...), são inúmeras imagens de ruína que acontecem sempre. Natural e humana. A Testemunha de Jeová de Lobo Antunes aparece pontualmente e é uma coisa paisagística: não tem personalidade, direito a sentar-se com a inteligência de Antunes; é como a mulher das limpezas ou a esteticista, mas ainda mais circunstancial e sem voz. Aparece a despropósito, num todo vaguear incomum das letras portuguesas do século vinte. Lobo Antunes traz para a sua prosa a personagem da Testemunha de Jeová com o intuito banal de dizer, dizer por dizer, de descrever, de apresentar um sumário das coisas engraçadas que existem na Terra. Não lhes presta atenção nenhuma. É até rude ou cínico, não só indiferente e ignorante. A Testemunha de Jeová é um ponto perdido, e sem brilho, na constelação da sua obra, que teima, nos piores livros, trilhar essa deriva descritiva e obsessiva da linguagem sem a quase nada atribuir significado ou largura crítica. Um bom exemplo. Mas seria de valor se lhe desse para centrar um livro à volta de uma Testemunha de Jeová, ou qualquer palermice de semelhante teor. Talvez espantasse a idiotia e, simultaneamente, se visse a braços com sentimentos antagónicos e limítrofes que desconhecia. Bem, creio que para isto um comunista também serve.
